quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Arquipélago Gulag: A torrente dos kulaks

Preâmbulo

Félix Maier

26/04/2007

Uma comparação que se faça com a Rússia, que substituiu os kulaks pelos kolkhozes, com a propriedade privada rural brasileira sendo invadida pelo MST, não será uma comparação desprovida de sentido. Estamos, sim, caminhando rapidamente para uma coletivização do campo, para os sovietes de aldeia da antiga União Soviética, com a crescente e incessante política de assentamentos, iniciada no governo FHC e seguida também pelo governo Lula da Silva.

Abaixo, texto extraído do Arquipélago Gulag, que trata do maior massacre soviético, o massacre em massa dos kulaks: 10 milhões de mortos. E tem boçal que até hoje defende o comunismo, como Oscar Niemayer, um gigante da arquitetura, porém um anão político.

“Assim iam borbulhando e manando as torrentes, mas por cima de todas elas rolou e precipitou-se nos anos de 1929-30 essa leva de milhões e milhões de ‘deskulakizados’. Como era desmedidamente grande, não podia conter-se sequer na já desenvolvida rede de cárceres (que, além disso, estava superlotada com a torrente do ‘ouro’), mas contornou-a, indo parar imediatamente nos campos de trânsito, nas expedições de prisioneiros, no país do Gulag. Desbordando de uma só vez com sua enchente, essa torrente (este oceano!) extravasava para lá dos limites de tudo o que se pode permitir um sistema judiciário e carcerário, mesmo de um Estado enorme. Não havia termos de comparação em toda a história da Rússia. Tratava-se de uma migração de povo de uma catástrofe étnica. Mas os canais da GPU-Gulag estavam tão judiciosamente traçados que as cidades nada teriam notado, se não tivessem estremecido com uma estranha fome de três anos, uma fome sem seca e sem guerra.
Esta torrente diferenciava-se ainda de todas as precedentes pelo fato de que neste caso não havia demasiadas preocupações em agarrar primeiro o chefe de família e ver depois o que se havia de fazer ao resto da prole. Pelo contrário, aqui não se reduziam num ápice a cinzas senão lares completos, não se agarravam senão famílias inteiras e valava-se mesmo zelosamente para que nenhuma das crianças de catorze, de dez ou de seis anos escapasse: todos deviam ir para um mesmo local, a fim de conhecerem uma exterminação comum. (Esta foi a primeira experiência deste tipo em toda a história moderna. Hitler repetiu-a depois com os judeus e outra vez Stálin com as nações infiéis e suspeitas.)
Esta torrente englobava só uma parte insignificante daqueles kulaks cujo nome foi utilizado para desviar a atenção. Um russo chama kulak ao mesquinho e desonesto traficante rural, que enriquece não com o seu trabalho, mas através da usura e do comércio. Em cada localidade, até a Revolução, eles eram casos isolados e a Revolução privou-os em geral do terreno em que podiam exercer a sua atividade. Mas logo depois do ano de 17, por uma transferência de significado, passou-se a designar por kulak (na literatura oficial e de agitação, daqui deslizando para a linguagem usual) todos aqueles que em geral empregavam trabalhadores agrícolas assalariados, mesmo devido a insuficiências temporárias das suas famílias. Não percamos de vista que depois da Revolução era impossível que qualquer trabalho desses não fosse pago na sua justa medida: os interesses dos assalariados eram salvaguardados pelos comitês de camponeses pobres e pelo soviete da aldeia; ai daquele que tentasse lesar a diária de um trabalhador agrícola! O trabalho assalariado, pago com justiça, é permitido ainda hoje no nosso país.
Mas a dilatação do fustigante termo kulak procedeu-se irresistivelmente, e em 1930 designavam-se já através dele todos os camponeses economicamente fortes: e não só fortes quanto à exploração, mas fortes quanto ao trabalho e até simplesmente quanto às suas convicções. O termo kulak era utilizado para quebrantar a força. Recordemo-nos e recobremos os espíritos: tinham decorrido apenas doze anos desde o grande Decreto da Terra, esse mesmo sem o qual o campesinato não teria seguido os bolcheviques nem a Revolução de Outubro teria triunfado. A terra foi distribuída por um certo prazo e por igual. Havia só nove anos que os mujiques tinham regressado do Exército Vermelho e se tinham lançado sobre a terra conquistada. E de repente começou a falar-se de kulaks e de camponeses pobres. De onde provinha isso? Às vezes da composição afortunada ou não da família. Mas não seria, antes de mais nada, da tenacidade e da capacidade de trabalho? E eis que estes mujiques que produziam o pão que a Rússia comia no ano de 1928 foram arremetidos e desarraigados dos seus lugares pelos camponeses fracassados e pelos que chegavam das cidades. Enfurecidos, perdendo todo o conceito de ‘humanidade’ elaborado ao longo de milênios, estes puseram-se a cercar os melhores fazendeiros, juntamente com as suas famílias, tirando-lhes os bens, e lançando-os nus às tundras e às taigas desabitadas do norte.
Esse movimento de massa não podia deixar de se complicar. Era necessário livrar também a aldeia daqueles camponeses que simplesmente não manifestavam desejo de entrar no kolkhoz, que não revelavam inclinação para a vida coletiva, a eles desconhecida, suspeitando (sabemos agora com que fundamento) que ela traria o poder dos preguiçosos, o trabalho compulsivo e a fome. Era necessário desfazer-se também daqueles camponeses (por vezes nada ricos) que, pela sua audácia, força física e espírito de decisão, pelo calor da sua intervenção nas assembléias e pelo seu amor à justiça, gozavam da consideração dos seus conterrâneos, tornando-se, pela sua independência, perigosos para a direção do koklhoz (*). E em cada aldeia havia também aqueles que pessoalmente levantavam estorvos aos ativistas locais. Por ciúmes, inveja ou despeito, era esse o momento mais propício para um ajuste de contas. Para designar todas essas vítimas era necessária uma nova palavra e ela surgiu. Nela já nada havia de ‘social’, nem de econômico, mas soava magnificamente: ‘Você é íntimo dos kulaks’, isto é, ‘considero que você é um auxiliar do inimigo’. E isso basta! Até ao mais andrajoso trabalhador agrícola era inteiramente possível incluí-lo entre os íntimos dos kulaks! (**).
Foi assim que, com duas palavras, foram atingidos todos aqueles que constituíam a essência da aldeia, a sua energia, a sua viva inteligência e capacidade de trabalho, a sua resistência e consciência. Eles foram afastados e a coletivização levada a cabo.
Mas na aldeia coletivizada fluíram também novas torrentes:
- a torrente dos sabotadores da agricultura. Por todos os lados se começaram a descobrir agrônomos sabotadores, que tinham trabalhado toda a vida, até esse ano, honradamente, mas que então faziam crescer premeditadamente nos campos russos ervas nocivas. (Bem entendido, por indicações do Instituto de Moscou, agora completamente desmascarado. Tratava-se precisamente daqueles mesmos duzentos mil membros do Partido Camponês do Trabalho que não foram presos!) Certos agrônomos não cumprem as diretrizes profundamente inteligentes de Lissenko (2) (foi uma torrente assim que no ano de 1931 foi enviado para o Casaquistão o ‘rei’ da batata, Lorch). Outros cumprem-nas com pouca sutileza e revelam com isso a sua estupidez. (Em 1934 os agrônomos de Pskov semearam linho na neve, justamente como tinha ordenado Lissenko. As sementes incharam, cobriram-se de bolor e morreram. Vastos campos permaneceram incultos durante um ano. Lissenko não podia dizer que a neve era kulak, ou que ele próprio era idiota. Acusou os agrônomos de serem kulaks e de terem tergiversado na aplicação da sua tecnologia. E os agrônomos foram levados para a Sibéria. De resto, em quase todas as Estações de Tratores e Máquinas Agrícolas se descobriram sabotadores dos tratores e assim eram explicados os fracassos dos primeiros anos kolkhozianos!);
- a torrente ‘por perdas da colheita’ (mas estas ‘perdas’ eram calculadas relativamente aos números arbitrários estipulados na primavera pela ‘Comissão de Determinação da Colheita’);
- a torrente ‘pelo não cumprimento das obrigações de entrega de cereal ao Estado’ (o Comitê de Zona do Partido comprometeu-se, mas o kolkhoz não cumpriu: prisão com ele!);
- a torrente dos cortadores de espigas. O corte manual noturno de espigas no campo tornou-se um aspecto completamente novo de ocupação agrícola e um tipo inédito de ceifa das searas! Não foi uma torrente nada pequena, muitas foram as dezenas de milhares de camponeses, freqüentemente não homens nem mulheres, mas rapazes e moças, garotos e garotas, que os adultos mandavam pela noite a cortar espigas, porque não tinham esperança de receber do kolkhoz nada pelo seu trabalho diário. Por esta ocupação, amarga e pouco tentadora (nos tempos de servidão os camponeses não chegaram a tal necessidade), os tribunais aplicavam penas pesadas: dez anos por atentado perigoso à propriedade socialista, nos tempos da famosa lei de 7 de agosto de 1932 (em linguagem da prisão, lei de sete do oito).

(*) Este tipo de camponês e o seu destino está retratado de modo imortal por Stepan Tchaussov na novela de S. Zalíguin (N. do A.).

(**) Recordo-me que esta palavra, na nossa juventude, nos parecia inteiramente lógica e nada confusa (N. do A.).

(Alexandre Soljenítsin, in Arquipélago Gulag, pg. 64 a 68).


Notas:

(1) Kulak - Classe média camponesa (Rússia), surgida após a Nova Política Econômica (NEP), a partir de 1921 e até 1928. A partir de 1928, essa classe foi massacrada por Stalin, junto com os Nepmen (classe de comerciantes e industriais surgida na mesma época), dando origem aos Sovkhozes, fazendas estatais coletivas (Gosplan). O erudito marxista Leszek Kolakowski considerou esse massacre como “provavelmente a mais maciça operação militar jamais conduzida por um Estado contra seus próprios cidadãos”. Somente no período da coletivização e eliminação de classes (1929-36), 10 milhões de homens, mulheres e crianças tiveram morte antinatural (estudo demográfico de Iosif Dyadkin, Avaliação de mortes antinaturais da população da URSS em 1927-58, que circulou sob a forma de samizdat) (3). Com o fim dos kulaks, para conseguir moeda estrangeira, Stalin passou a vender secretamente, para o Ocidente, obras de arte do Museu Hermitage, Leningrado, uma coleção que levou mais de 100 anos para juntar. “Os quadros foram adquiridos por milionários do mundo inteiro. O maior foi Andrew Mellon que, em 1930-31, obteve, por US$ 6,654,053.00, 21 quadros, incluindo 5 Rembrandt, 1 Van Eyck, 2 Franz Hals, 1 Rubens, 4 Van Dyck, 2 Rafael, 1 Velásquez, 1 Boticelli, 1 Veronese, 1 Chardin, 1 Ticiano e 1 Perugino – provavelmente o tesouro da melhor qualidade jamais transferido numa única tacada e tão barato. Todas essas obras foram para a Washington National Gallery, criada virtualmente por Mellon” (Paul Johnson, in Tempos Modernos, pg. 226). O embaixador americano em Moscou, Joseph E. Davies, que disse sobre Stalin que ‘uma criança gostaria de sentar-se no seu colo e um cachorro caminharia a seu lado’, era subornado pelo Governo soviético para emitir falsas informações a seu país, e que por isso lhe permitia “comprar ícones e cálices para a sua coleção particular a preços abaixo do mercado” (Ib., pg. 232). “Além daqueles camponeses executados pela OGPU ou mortos em batalha, um número entre dez e onze milhões foi transportado para o norte da Rússia européia, para a Sibéria e para a Ásia Central; desses, um terço foi para campos de concentração, um terço para o exílio interno e outro terço foi executado ou morreu em trânsito” (Paul Johnson, op. cit., pg. 228). Sob Lenin, foi utilizado um pequeno número de “escravos políticos”, mas, sob Stalin esse número expandiu-se e “uma vez iniciada a coletivização forçada, em 1930-33, a população dos campos de concentração subiu para 10 milhões e, depois do começo de 1933, ela nunca caiu abaixo desse número, até bastante tempo depois da morte de Stalin” (Paul Johnson, op. cit., pg. 230).


(2) Lissenkoísmo - Política oficial soviética do estudo da genética, que classificava as ciências como “burguesas”, de um lado, e como “socialistas” ou “proletárias”, de outro lado. As teorias mendelianas de hereditariedade, adotadas pelo principal geneticista da União Soviética, Nikolai Vavilov, eram consideradas um anátema para os dirigentes soviéticos. Como os genes, àquela época, não podiam ser “vistos”, os lissenkoístas podiam acusar os mendelianos de os haver “inventado”. O Lissenkoísmo confiava mais na criação do que na natureza, estava mais empenhado em moldar o “novo homem socialista” do que aceitar a realidade dos caracteres humanos geneticamente transmitidos e suas mutações ocasionais. A teoria genética desenvolvida por Gregor Mendel, Thomas Morgan, Hugo de Vries, August Weismann, recebeu oposição na União Soviética dos geneticistas liderados por I. V. Michurin e T. D. Lissenko, que seguiam o lamarckianismo – a crença na hereditariedade dos caracteres adquiridos – e métodos de tentar mudar os caracteres por meio de mudança do ambiente, uma concepção que se encaixava melhor nas idéias marxistas-leninistas. “A biologia soviética caiu nas mãos do extravagante e fanático T.D. Lissenko, que pregava uma teoria de caracteres adquiridos por herança, à qual chamou de ‘vernalização’: a transformação de trigo em centeio, pinheiros em abetos e assim por diante – essencialmente tolices medievais. (...) A genética foi atacada ferozmente como ‘uma pseudociência burguesa’, ‘antimarxista’, que levava à ‘sabotagem’ da economia soviética. (...) Na medicina, uma mulher chamada O.B. Lepeshinskaya, pregava que a velhice poderia ser adiada graças a lavagens intestinais de bicarbonato de sódio” (Paul Johnson, op. cit., pg. 381).

(3) Samizdat - Sistema de contrabando de manuscritos de intelectuais soviéticos para o Ocidente. Às vezes, a própria KGB estava por trás desses contrabandos, recebendo elevadas somas de dinheiro por obras proibidas na União Soviética que eram publicadas no exterior. Nesses casos, os manuscritos eram confiscados das residências dos dissidentes e remetidos ao Ocidente à revelia do autor. Em 1967, 3 livros sobre expurgos e campos de concentração tinham sido contrabandeados para o Ocidente: Tempestade de Areia, de Galina Serbryakova, A Casa Abandonada, de Lydia Chikovskaya, e Uma Jornada ao Furacão, de Evgenia Ginzburg.

Veja, ainda, os seguintes verbetes do Arquivos I - Uma história da intolerância, de minha autoria:

Campo de concentração, Charachka, Dalstroi, Desestalinização, Dissidentes, Empalação, Escolas de subversão e espionagem, GPU, Hospitais psiquiátricos, Instituto Serbsky, ITL, KGB, Kominform, Komsomol, Komintern, KPZ, KVTCH, ...lag, Lubianka, MGB, MVD, MVTU, NEP, NKGB, NKPS, NKVD, OGPU, RKP(b), PFL, Politburo, Política do liquidificador, Pomgol, Promparti, Revtribunal, RKI, RKKA, RKP(b), Schutzbund, Sistema métrico da intolerância, Slon, Smerch, Smólni, SNK, SOE, Soloviétski, Sovinformburo, Sovnarkon, SVE, SVPCH, Tcheká, Tchon, TCHS, TKP, TON, Tortura, TSIK, UPK, UK, UMAP, USVITL, VAD, VAS, VAT, Verkhtrib, Vetcheká, Vikjel, Vsnkh, VTSIK e ZEK.

Leia Arquipélago Gulag” e O Livro Negro do Comunismo, e acesse o Museu virtual do Comunismo (www.gmu.edu/departments/economics/bcaplan/museum/musframe.htm).


Bibliografia consultada:

JOHNSON, Paul. Tempos Modernos - O mundo dos anos 20 aos 80. Biblioteca do Exército Editora e Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1994 (Tradução de Gilda de Brito Mac-Dowell e Sérgio Maranhão da Matta).

MAIER, Félix. Arquivos I - Uma história da intolerância. Usina de Letras.

SOLJETNÍTSIN, Alexandre. Arquipélago Gulag. Difel, São Paulo, 1975.